Intervenção do Patriarca de Lisboa no III Congresso Diocesano da Pastoral Sócio-Caritativa

15 Mai, 2026

Lançar as redes da caridade para evangelizar

Vivemos o tempo pascal. E o tempo pascal é sempre o tempo da Igreja em movimento. O Ressuscitado não deixa os discípulos fechados, imóveis, voltados sobre si mesmos. Pelo contrário: Cristo ressuscitado volta a reuni-los, volta a chamá-los, volta a enviá-los. E é precisamente nesse horizonte que encontramos uma das páginas mais belas e mais simbólicas do Evangelho de São João: a pesca milagrosa do capítulo 21, onde surgem umas outras redes, que inspiram o que as redes de hoje – sejam institucionais, sejam digitais – podem ser.

Depois da noite da paixão, depois da dispersão, depois do medo e até do fracasso, os discípulos regressam ao lago. Voltam às redes. Voltam ao quotidiano. E é precisamente aí, na aparente normalidade da vida, que Cristo ressuscitado aparece. «Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis» (Jo 21, 6).

A imagem da rede torna-se, assim, profundamente reveladora para compreendermos a missão da Igreja. A evangelização é uma rede. Mas não uma rede de domínio. Não uma rede de controlo. Não uma rede ideológica. A evangelização é uma rede de caridade. Uma rede de relações vivificadas pelo amor de Deus.

E talvez possamos dizer que uma das grandes crises do mundo contemporâneo é precisamente esta: multiplicaram-se as conexões, mas diminuíram as relações. Nunca estivemos tão ligados tecnologicamente; e talvez nunca tenhamos estado tão separados interiormente. Há redes digitais, redes económicas, redes sociais, mas muitas vezes falta a grande rede da comunhão humana. Falta a capacidade de viver verdadeiramente ligados uns aos outros a partir de Deus. Ora, é precisamente aqui que o Evangelho pascal nos ilumina.

 

1. A noite estéril e o drama da humanidade sem Deus

O Evangelho começa com uma frase profundamente dramática: «Naquela noite não apanharam nada» (Jo 21, 3). A noite, em São João, nunca é apenas uma indicação cronológica. É símbolo espiritual. É a condição do homem fechado sobre si mesmo. É a tentativa de construir a vida sem Deus.

Os discípulos trabalham. Esforçam-se. Têm experiência. Conhecem o lago. Mas a rede permanece vazia. Não é esta também a experiência do nosso tempo? Vivemos numa civilização extremamente desenvolvida tecnicamente, mas frequentemente cansada espiritualmente. Há abundância de meios e escassez de sentido. Há velocidade, mas pouca direção. Há comunicação, mas dificuldade de encontro verdadeiro. Desenvolve-se um dramático analfabetismo humano e espiritual que impede de encontrar caminhos verdadeiros e fecundos.

O drama da pobreza não é apenas económico. O Papa Leão XIV recorda-o na Exortação Apostólica Dilexi te: «Existem muitas formas de pobreza: a daqueles que não têm meios de subsistência material, a pobreza de quem é marginalizado socialmente e não possui instrumentos para dar voz à sua dignidade e capacidades, a pobreza moral e espiritual, a pobreza cultural, aquela de quem se encontra em condições de fraqueza ou fragilidade seja pessoal seja social, a pobreza de quem não tem direitos, nem lugar, nem liberdade»[1]. Podemos acrescentar nós: a perda da capacidade de reconhecer que o ser humano só encontra a sua verdade quando vive em relação, é certamente a pobreza mais grave e profunda do nosso tempo.

O homem não foi criado para o isolamento. Foi criado para a comunhão. Por isso, a evangelização não consiste simplesmente em transmitir conteúdos religiosos. Evangelizar é reconstruir relações. É voltar a lançar redes de comunhão onde o individualismo rasgou os laços humanos. Neste sentido, em todas as iniciativas eclesiais – de caridade, de evangelização, de oração – deve-se privilegiar o ser em relação. Entender cada um não como indivíduo, mas como pessoa. Pessoa que pertence a uma família, a um contexto, a uma rede de relações. A Igreja – e as suas atividades – não podem ser mais um meio de dispersão e de divisão do ser humano. A Igreja tem de ser meio de construção de relações mais profundas e humanas.

 

2. Cristo ressuscitado está na margem

O texto evangélico diz: «Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem» (Jo 21, 4). Esta imagem é extraordinária. Os discípulos estão dentro da instabilidade do mar. Jesus está na margem firme. Eles vivem o esforço. Cristo oferece a direção. Eles têm redes vazias. Cristo prepara o pão.

A evangelização começa sempre daqui: não da nossa capacidade, mas da presença do Ressuscitado. Hoje corre-se frequentemente o risco de transformar a missão da Igreja numa estratégia organizativa, numa questão apenas sociológica ou funcional. Mas a missão nasce do encontro com Cristo vivo. Sem Cristo, as redes ficam vazias. Sem Cristo, a caridade torna-se filantropia. Sem Cristo, a Igreja reduz-se a instituição. Sem Cristo, a evangelização perde alma.

Por isso, o primeiro grande desafio pastoral não é fazer mais coisas. É voltar à fonte. É reconstruir a vida espiritual. É reaprender a contemplar.

O Papa Leão XIV insiste precisamente nisto em Dilexi te: toda a verdadeira renovação da Igreja nasce da experiência do amor de Cristo que conduz ao amor pelos pobres[2]. Não se trata de duas realidades separadas. O amor a Deus e o amor aos pobres pertencem ao mesmo movimento espiritual. A santidade torna-se, assim, a grande resposta de Deus ao drama humano. E isto é decisivo. O mundo contemporâneo procura frequentemente soluções técnicas para problemas espirituais. Mas a Igreja sabe que o coração do homem só é verdadeiramente curado pela santidade. Os santos são a grande rede de Deus lançada sobre a história.

 

3. «Lançai a rede»

Jesus não diz aos discípulos para abandonarem a rede. Manda lançá-la de novo. Isto é profundamente importante para a Igreja de hoje. Não somos chamados a fugir do mundo. Somos enviados ao mundo. A questão não é abandonar as redes humanas. A questão é deixar que elas sejam iluminadas pelo Evangelho. Precisamos, por isso, de retomar o entusiasmo. A esse respeito, alertava o Papa Francisco quando visitou Portugal em 2023: «quando se perde o entusiasmo, assaltam-nos mil justificações para não lançarmos as redes, mas sobretudo apodera-se de nós uma resignação amarga, que é como um verme que corrói a alma»[3].

Quando Jesus manda lançar as redes, fá-lo oferecendo a graça para o fazermos com entusiasmo. São a rede do amor, da dedicação e do serviço. As nossas famílias precisam desta rede. Os jovens precisam desta rede. Os pobres precisam desta rede. Os doentes precisam desta rede. Os idosos precisam desta rede. Os que perderam a esperança precisam desta rede. E aqui percebemos algo essencial: a caridade não é apenas consequência da evangelização. A caridade é já evangelização.

Quando alguém experimenta ser amado gratuitamente, começa a entrever o rosto de Deus. Talvez por isso o Evangelho de João coloque esta pesca depois da Ressurreição. Porque a Igreja nasce precisamente como comunidade chamada a lançar ao mundo a rede do amor pascal. Não uma rede que aprisiona. Mas uma rede que salva.

 

4. A rede que não se rompe

Mas há mais um detalhe impressionante no texto: «Apesar de serem tantos os peixes, a rede não se rompeu» (Jo 21, 11). A rede da Igreja não se rompe porque a sua unidade não nasce da uniformidade humana, mas da caridade divina.

Vivemos num tempo profundamente fragmentado. Tudo parece dividir-se: opiniões, culturas, gerações, sensibilidades, pertenças. O homem contemporâneo vive frequentemente rasgado interiormente. Ora, a Igreja é chamada precisamente a ser sinal de unidade. Não unidade superficial. Não uniformização. Mas comunhão. E esta comunhão nasce do coração de Cristo.

Talvez aqui esteja uma das maiores urgências da evangelização contemporânea: criar espaços onde o homem possa experimentar novamente a possibilidade da fraternidade. A Igreja não cresce por conquista. Cresce por atração. E aquilo que verdadeiramente atrai é a santidade vivida como caridade.

Os primeiros cristãos evangelizaram o mundo não porque tinham poder, mas porque criaram relações novas. Relações onde pobres e ricos, escravos e livres, homens e mulheres descobriam que eram irmãos. O mundo continua a precisar desta profecia.

 

5. «Vinde comer»

Depois da pesca, Jesus diz: «Vinde comer» (Jo 21, 12). A missão termina sempre na mesa. A evangelização conduz sempre à comunhão. Tudo converge para a Eucaristia. Cristo ressuscitado oferece pão e peixe. É imagem da Igreja alimentada pelo Senhor para alimentar o mundo. Por isso, não há verdadeira caridade sem vida sacramental. E não há verdadeira evangelização sem contemplação.

A rede da Igreja nasce da Eucaristia. É diante do Senhor que aprendemos a olhar o outro não como ameaça, concorrente ou estranho, mas como irmão. E talvez hoje precisemos urgentemente de recuperar esta dimensão contemplativa da ação pastoral.

O ativismo esgota. A contemplação gera vida. Só quem permanece em Cristo consegue permanecer verdadeiramente junto dos pobres, dos frágeis, dos que sofrem. Caso contrário, a caridade torna-se apenas peso moral. Mas quando nasce de Deus, torna-se irradiação da vida divina.

 

6. A santidade como resposta de Deus

No fundo, a exortação Dilexi te, do Papa Leão XIV, recorda-nos isto mesmo: a resposta decisiva de Deus ao sofrimento humano é a santidade. Não uma santidade desencarnada. Não uma espiritualidade intimista. Mas uma santidade que gera proximidade, cuidado, fraternidade e esperança.

Os santos são homens e mulheres que reconstruíram redes de humanidade. São Vicente de Paulo. Madre Teresa de Calcutá. São Charles de Foucauld. Além dos santos de altar, tantos homens e mulheres anónimos que sustentam silenciosamente o mundo através da oração, do serviço e da fidelidade quotidiana.

A santidade é a forma mais alta da caridade. Porque o santo não oferece apenas ajuda. Oferece Deus. Deste modo, é fundamental redescobrir a santidade como o horizonte fundamental de toda a ação da Igreja. Pode ser um desafio, sobretudo nas instituições caritativas, quando a urgência por preencher quadros de colaboradores não permitem que se escolha quem tem já alguma caminhada de fé. Mas também aí, a ação das instituições socio-caritativas tem uma função fundamental: constituir uma família mais ampla, em que se iniciam processos de fé, caminhos de evangelização. Em que quem trabalha profissionalmente seja tomado pela caridade que se exerce e assim seja também evangelizado.

A santidade dos dirigentes, a santidade dos assistentes e todas as formas de colocar em contacto com o decisivo de Deus – que a santidade sinaliza – devem ser sempre oportunidades de mostrar o rosto mais belo da Igreja, que se contempla nos santos.

 

Conclusão

Concluindo: O Ressuscitado continua hoje na margem do mundo. Continua a chamar. Continua a dizer: «Lançai a rede». Talvez muitas vezes também nós sintamos redes vazias. Cansaço pastoral. Fragilidade. Desânimo. Sensação de inutilidade. Mas o Evangelho pascal recorda-nos: a fecundidade da Igreja não nasce da força humana. Nasce da obediência amorosa a Cristo.

A grande rede que somos chamados a construir não é primeiramente organizativa. É espiritual. Uma rede de oração. Uma rede de caridade. Uma rede de comunhão. Uma rede de santidade. Porque só quando os homens reencontram Deus conseguem reencontrar-se verdadeiramente uns aos outros. E talvez seja esta a grande missão da Igreja no nosso tempo: num mundo de conexões frágeis, voltar a oferecer relações eternas. A Igreja conta convosco, com cada um de vós, para sermos construtores desta rede.

Obrigado.

 

Auditório Beatriz Costa (Mafra), 15 de maio de 2026
† RUI, Patriarca de Lisboa

 

 


 

[1] Leão XIV, Exortação apostólica Dilexi te, n. 9.

[2] Cf. Leão XIV, Exortação apostólica Dilexi te, n. 2.

[3] Francisco, Homilia das Vésperas com bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados, consagradas, seminaristas e agentes de pastoral, 2 de agosto de 2023.